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  • Camila, @BrasileirasdoMundo

Fernanda Souza, França 🇫🇷


Brasileiras do Mundo: Quando e por quê decidiu morar no exterior ?


Fernanda: Eu preciso admitir que nunca me senti pertencente da minha cidade natal que é Belém, sempre achei que precisava descobrir e desbravar outros lugares. Aos 16 anos comecei a fazer um curso de francês e quando eu tinha 18 anos (em 2012) tive a oportunidade de vir fazer um intercâmbio cultural aqui. Esse primeiro contato foi o que poderíamos dizer "amor à primeira vista", porque eu não esperava gostar tanto. Foram 2 meses que me deram uma vontade de voltar pra cá.


Depois dessa primeira experiência eu voltei pra cá em 2013, por um ano com o Ciências sem Fronteiras, e foi quando conheci meu marido. Em 2014 voltei pro Brasil para me formar e em agosto de 2017 me mudei pra cá definitivamente.


BDM: Quais as maiores dificuldades que você encontrou no seu país de destino ?


F: Meu diploma não foi validado, precisei voltar pra escola de arquitetura e esse ano foi de longe o pior da minha vida. De um ponto de vista profissional, mas pessoal também. Eu precisei ignorar a formação e os anos de experiência que eu já tinha para voltar para a escola, em um método extremamente baseado na cultura da humilhação. Não sentia nesse caso preconceito ou xenofobia, pois via essa humilhação com franceses também, mas nem por isso podemos normalizar isso. Além disso, saí da minha vida de filha para a minha vida de esposa e eu definitivamente não estava pronta.


A impressão que as pessoas tinham era que eu dependia do meu marido, o que nunca foi o caso

No começo ouvi muitas asneiras de pessoas muito próximas ao meu marido como "ela tem mais que lavar a louça mesmo, está de favor na sua casa", "eu preferia muito mais que você estivesse se envolvendo com uma francesa, muito menos trabalho e não depende de você" (essa eu ouvi na mesa do restaurante onde estávamos comemorando o meu aniversário). A impressão que as pessoas tinham era que eu dependia do meu marido, o que nunca foi o caso, mas mesmo se fosse, isso precisava ser tratado com muito mais cuidado e respeito, obviamente.




BDM: Quais são as coisas das quais você mais se orgulha?


F: Depois desse primeiro ano de provas (principalmente psicológicas) eu arrumei um emprego na minha área e as coisas começaram a mudar e melhorar. Passei por um primeiro escritório que me serviu para abrir as portas do mercado de trabalho aqui, e indiretamente através dessa primeira oportunidade conheci o escritório onde trabalho hoje e sou muito feliz. Então de um ponto de vista profissional, me sinto orgulhosa e satisfeita de ver o meu trabalho valorizado e respeitado. De fazer de uma equipe onde sou vista de igual para igual.


De um ponto de vista pessoal preciso contextualizar um pouco... Durante o primeiro confinamento o meu casamento desandou, nunca tínhamos ficado tanto tempo juntos. Os conflitos começaram e eu decidi sair de casa. Pensei (e todos ao meu redor também) que nunca ia conseguir um apartamento, pois tenho um status de autônoma, não tenho fiador francês, etc. Mas no meu primeiro telefone, do outra lado da linha eu eu encontrei uma brasileira cheia de empatia, que entendeu a minha situação e me deu prioridade na lista de futuros colocatários. Aluguei meu primeiro apartamento sozinha e fiquei lá por 9 meses, cuidei da minha saúde mental e física, aprendi a respeitar meu tempo e meu funcionamento, aprendi a ficar sozinha e curtir isso. Precisei passar pelo confinamento sozinha um tempo, entender que sou independente, pra então recriar as bases do meu casamento.


Isso tudo foi muito difícil de viver sozinha, por diversos momentos tudo o que eu queria era ter a opção de voltar pra casa da minha mãe e deitar no colo dela. Esse sem dúvida é o preço mais caro que pagamos por morarmos longe. Precisei contextualizar esse processo para dizer que também sinto orgulho do caminho não tão tradicional que eu e meu marido passamos para nos reencontrarmos e nos reinventarmos.Hoje tenho orgulho do meu percurso profissional e pessoal também e me sinto a vontade para compartilhar com outras pessoas.


BDM: Três dicas para mulheres que pensam em sair do Brasil?


F: 1.Tenha seu projeto de vida muito claro e muito amadurecido na sua cabeça antes de ir, lembre sempre do por quê você tomou essa decisão e foque nisso, porque os momentos que darão vontade de voltar pra "casa" serão muitos.

Eu sou do time que prefere um projeto bem organizado antes de ir, antes de "largar tudo e ir sem olhar pra trás". Ao contrário, pra mim, olhar pra trás muitas vezes é uma forma de me reconectar. Por isso repito que essa imigração deve ser parte de um projeto de vida previamente organizado.


2. Tenha uma rede de apoio de mulheres brasileiras no seu local escolhido, essa será provavelmente a sua nova família.


3. Não desista na primeira dificuldade ! Muitas pedras vão aparecer pelo seu caminho, mas esse também será o caso se você estiver no Brasil.


* Todas as histórias publicadas aqui são reais e oferecidas pelas entrevistadas de forma voluntária. O Brasileiras do Mundo não se responsabiliza pelo conteúdo dos depoimentos.