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  • Camila, @BrasileirasdoMundo

Natalia Fontenele, Estados Unidos 🇺🇸

Brasileiras do Mundo: Quando e por que você decidiu morar no exterior?


Natalia: Desde a adolescência, eu sonhava em ter uma experiência temporária fora do Brasil. Meu sonho era conhecer novos idiomas, pessoas, mentalidades, culturas, estilos de vida, etc. Apesar da vontade ser grande, ainda demorei alguns anos para o fazer, pois não tinha condições financeiras.


Alguns anos após o término do ensino médio, eu ainda me sentia perdida profissionalmente. Eu não sabia qual profissão escolher fazer pelo resto da minha vida, então comecei a estudar arquitetura por pressão familiar. Descobri logo cedo que não gostava, mas continuei o curso com medo de decepcionar a minha família... até descobrir o design industrial, ou também conhecido como “design de produto”, minha atual grande paixão! Então, em 2015 tranquei a faculdade de arquitetura e a transferi para design industrial... em Portugal (para o desespero da minha família). Porém, não foi tão súbito assim. Na verdade, me planejei por um ano em relação à documentação, finanças, lugar para morar, universidade, trabalho, informações gerais, etc.



BDM: Quais as maiores dificuldades que você encontrou no seu país de destino?


N: Os choques culturais foram as maiores dificuldades que enfrentei no início. O maior choque de todos, e que parece muito bobo mas me influenciou durante 4 anos, foi o fato de eu não saber que em Portugal os jovens não costumam trabalhar e estudar simultaneamente como fazemos no Brasil (pelo menos na cidade em que eu estava). Por causa disso, mesmo com tanto planejamento, eu falhei. Descobri que o meu curso seria integral somente uma semana antes do início das aulas, quando a universidade disponibilizou o plano de horários. Assim, não me sobrava tempo para trabalhar em tempo integral. Eu não tinha condições financeiras para apenas estudar, então precisei encontrar dois trabalhos de meio período aos fins de semana e/ou a noite. Meus horários eram uma loucura! Às vezes dormia somente duas horas e na manhã seguinte ia direto para a faculdade e estudava o dia inteiro. Cheguei a ficar quase um ano sem nem um dia de folga. Eu vivia na universidade ou no trabalho, incluindo feriados. Meu corpo chegou a desenvolver uma alergia de pele causada por estresse que eu nunca tinha tido no Brasil. Somente quando fiquei com indícios de depressão, pedi demissão em um dos trabalhos e arranjei outro de meio período com horários mais flexíveis, para que eu pudesse ter pelo menos dia de folga fixa. É uma loucura pensar que uma diferença cultural tão pequena influenciou tanto a minha jornada. Me planejei tanto, mas não esperava por essa.


Cheguei a deixar de fazer o meu trabalho sorrindo para que não houvesse desculpas de “mal entendido”. Outras vezes, fingi que era estrangeira para que não percebessem a minha nacionalidade.

Outra grande dificuldade em Portugal foi o preconceito não somente por ser brasileira, mas por ser mulher brasileira. Xenofobia e misoginia juntos. Um dos meus trabalhos part-time era como bartender, e esse foi infelizmente o ambiente no qual estive mais exposta ao preconceito por parte de homens e mulheres, mas principalmente homens. Trabalhei lá por 4 anos para pagar meus estudos, e ouvi um absurdo atrás do outro. Para evitar agressões verbais e discriminações, cheguei a deixar de fazer o meu trabalho sorrindo para que não houvesse desculpas de “mal entendido”. Outras vezes, fingi que era estrangeira para que não percebessem a minha nacionalidade. Esse foi um grande choque, pois eu já tinha conhecido muitos portugueses que amavam o Brasil, que foram super bem recebidos pelo nosso povo e que gostavam de nós, brasileiros. Por outro lado, infelizmente tinha esse percentual de pessoas que jorrava preconceito. Enfim, o ambiente de trabalho era muito tóxico em si, por isso as situações de discriminação eram mais frequentes e evidentes por lá. Trabalhei lá até me formar.




BDM: Quais são as coisas das quais você mais se orgulha?


N: Meu maior orgulho é a conquista do meu diploma. Apesar do meu cansaço físico e psicológico por conta dos dois trabalhos e da faculdade integral, eu não desisti. Tirei forças de dentro de mim que nem eu sabia que tinha. As injustiças que eu vivi em Portugal eram também as razões pelas quais eu me motivava a estudar cada dia mais. Me lembro até hoje o dia que fui com meu namorado em um café no qual a dona do estabelecimento começou a gritar com uma funcionária na frente de todos os clientes. Saindo dali segurei as mãos dele e disse “Por favor, sempre que eu reclamar ou chorar porque me sinto cansada, me lembre dessa cena que acabamos de ver. Vou estudar muito para que eu nunca mais tenha que me submeter a ambientes de trabalho como esse que acabamos de ver, e que infelizmente são os que tenho hoje.” Ele prometeu que me lembraria. Desde então, quando o cansaço físico e/ou psicológico me atingiram, ele cumpriu a promessa que fez, e eu me reergui todas as vezes. Não sei nem se eu conseguiria fazer tudo de novo, mas tenho muito orgulho das decisões que tomei pra vencer essa luta. Valeu a pena cada segundo, cada milésimo!


Como resultado, eu fiquei em primeiro lugar na lista da faculdade para uma bolsa de estudo de intercâmbio. Graças a essa bolsa de estudo pude estudar design na Itália durante seis meses. Foi outro grande sonho realizado!


Aprendi a amar o Brasil, a dar valor ao nosso povo e a nossa cultura que são tão incríveis.

Após terminar meu bacharelado, me candidatei também a outra bolsa de estudo, dessa vez para fazer mestrado nos Estados Unidos. Graças ainda àqueles anos de luta, esse foi o segundo fruto que colhi e que me enche de orgulho. Atualmente estou nos EUA e a bolsa de estudo me permite estudar de graça para além de me pagarem um salário mensal. Eu desenvolvo uma pesquisa da minha escolha, que é relacionada à aplicação de design na luta contra o tráfico humano. Além disso, também trabalho como professora para os alunos de bacharelado na universidade. Amo as pessoas no meu ambiente de trabalho atual e não sofri nenhum tipo de preconceito por enquanto.


Para finalizar, acima de tudo hoje me orgulho do meu país. Aprendi a amar o Brasil, a dar valor ao nosso povo e a nossa cultura que são tão incríveis. O Brasil tem um potencial gigantesco! Meu grande sonho agora é voltar e contribuir para o desenvolvimento do meu país. Quero ajudar ativamente nessa luta.





BDM: Três dicas para mulheres que pensam em sair do Brasil?


N: 1. Não acredite em influenciadores que romantizam a vida fora do Brasil. Morar fora tem sim muitas coisas boas e é bom falar sobre elas, mas são poucos os influenciadores que mostram os dois lados da moeda.

2. Não faça uma grande mudança às pressas, planeje-se! Diversos imprevistos apareceram no meu caminho mesmo depois de eu ter me planejado tanto.

3. Já que meus pontos anteriores foram sérios demais, gostaria de usar esse para descontrair um pouco e dizer: não desista dos seus sonhos! Minha jornada valeu super a pena! Amo as experiências que vivi, os amigos que fiz e as tantas coisas que aprendi. Não me arrependo de absolutamente nada, mesmo com todas as dificuldades que enfrentei. Tudo é possível com esforço, persistência e responsabilidade! * Todas as histórias publicadas aqui são reais e oferecidas pelas entrevistadas de forma voluntária. O Brasileiras do Mundo não se responsabiliza pelo conteúdo dos depoimentos.