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  • Camila, @BrasileirasdoMundo

Ana Paula Bueno, Canadá 🇨🇦


Brasileiras do Mundo: Quando e por que você decidiu morar no exterior?

Ana Paula: Desde os 15 anos, meu sonho era estudar em outro país e em outro idioma. Em 2018, aos 22 anos, fiquei sabendo sobre um programa de imigração na província do Québec, no Canadá, e comecei a pesquisar bastante. O mais interessante sobre esse programa era que após os estudos, eu teria direito a um visto de trabalho e poderia dar entrada em um processo de residência permanente. Graças ao apoio dos meus pais, eu tive a oportunidade de realizar esse projeto. Eu entendo o quanto sou privilegiada por ter tido o auxílio deles e acho importante ressaltar essa parte porque sei que muitas mulheres não têm esse mesmo privilégio.


BDM: Quais as maiores dificuldades que você encontrou no seu país de destino? AP: Fiquei deprimida logo na minha primeira semana em Montreal (cidade que escolhi como destino). Eu não conhecia ninguém, não falava o idioma muito bem e não entendia como quase nada funcionava. Eu me sentia muito arrependida pela minha escolha, mas sabia que não podia voltar atrás porque muito dinheiro tinha sido investido no curso que eu iria fazer. Eu me sentia mais arrependida ainda porque pensava: "tanta gente queria ter a oportunidade de fazer o que estou fazendo e eu aqui triste e reclamando". Foi um choque de realidade pra mim aos 22 anos. Eu "perdi" toda minha rede de apoio e nada fazia muito sentido.

Fiz amizade com alguns brasileiros que estudavam comigo e que se tornaram a minha família - sinceramente, acho que não teria conseguido continuar sem eles.

Levou algum tempo, mas comecei a me adaptar bem à nova vida e a gostar da cidade. Tinha conhecido algumas pessoas bem legais no meu curso e fiz amizade com alguns brasileiros que estudavam comigo e que se tornaram a minha família - sinceramente, acho que não teria conseguido continuar sem eles. O curso foi bem difícil no começo porque eu ainda não dominava o francês, mas com o tempo deu tudo certo. Só que...após alguns meses aqui, recebi a notícia de que meu pai estava com câncer. Nada fez mais sentido pra mim por um tempo. Eu só pensava em largar tudo e voltar pro Brasil, pois sou muito próxima do meu pai, mas ele me dizia que queria que eu continuasse com os estudos. Foi uma fase muito difícil, mas meu pai venceu o câncer! Que felicidade! Não sei nem explicar o alívio e a felicidade que eu e minha família sentimos. Ele veio me visitar - com a minha mãe - no final de 2019. Passamos o Natal juntos e foi muito especial. BDM: Quais são as coisas das quais você mais se orgulha? AP: Quando cheguei no Canadá, eu tinha 22 anos e pouquíssima experiência de vida. Apesar de trabalhar e estudar desde os 17 anos no Brasil, quando a gente muda de país e fica longe de toda nossa rede de apoio é realmente necessário aprender a fazer tudo sozinha. Eu me orgulho da minha escolha de ter vindo e do quanto isso me fez amadurecer como mulher. Hoje, com 25 anos, sinto que envelheci uns 15 anos desde que cheguei! Também me orgulho por ter me dedicado aos estudos e por ter encontrado meu lugar no mercado de trabalho daqui. Trabalhei como recepcionista, fui babá, trabalhei em uma colônia de férias para crianças durante o verão...e hoje sou feliz por poder dizer que trabalho na minha área, que é cinema. Acho que mulheres imigrantes também devem se orgulhar muito por trabalharem em outro idioma! Às vezes nos sentimos mal por não dominar totalmente a língua, por não pronunciar perfeitamente as palavras, etc...mas aprendi que não precisamos ter vergonha disso. Muito pelo contrário, é lindo demais que a gente consiga viver, estudar e trabalhar em um idioma diferente do nosso! Eu trabalho em inglês e francês e hoje em dia me orgulho muito disso.


BDM: Três dicas para mulheres que pensam em sair do Brasil? AP:1) Entender que você vai preferir algumas coisas do Brasil e outras do país para onde vai imigrar. Não existe lugar perfeito. O importante é estar disposta a se adaptar/se integrar e ao mesmo tempo não esquecer das suas origens. 2) Não tente se afastar de brasileiros, a imigração pode ser um processo muito solitário então se você puder continuar tendo contato com alguém que entende de onde você vem, isso pode ser muito positivo. É possível fazer isso ao mesmo tempo em que se esforça para se integrar com os locais. 3) Se for uma questão de escolha, pesquise muito antes para saber se o lugar para onde você quer imigrar tem a ver com você. Por exemplo, eu moro na província do Québec, no Canadá, e vejo que alguns imigrantes mais conservadores não conseguem se adaptar muito bem, pois aqui assuntos como descriminalização das drogas, do aborto, etc são tratados de maneira super progressista (sou muito feliz porque tem a ver comigo, então me sinto bem). * Todas as histórias publicadas aqui são reais e oferecidas pelas entrevistadas de forma voluntária. O Brasileiras do Mundo não se responsabiliza pelo conteúdo dos depoimentos.